Casa de Farinhada

Casa de Farinhada

Raiz forte, venenosa e cheia de lendas, tudo se aproveita da mandioca. Do seu caule comprido e cheio de nódulos se faz o replantio ou a ração para o gado, e da sua massa branca, surgem a farinha, a goma e a puba - ingredientes certos e costumeiros na mesa do piauiense.

A colheita ocorre um ano e meio depois, no mês de julho, quando os fornos de laje de pedra recebem a lenha para aquecer o que a mandioca oferece, deixando no ar o cheiro delicioso da farinhada.

A colheita é geralmente feita aos finais de tarde e ao amanhecer. Uma arrancada, com pelo menos 1.200 kg, chega na casa de farinha cedo da manhã. A partir daí começam os preparativos para um grande rojão, que deve durar o dia inteiro e entrar pela noite. As mulheres, geralmente em duplas, começam a descascar a mandioca. Em seguida, é levada a um tanque para ser lavada e depois segue para uma máquina de triturar, produzindo uma massa pastosa, que é colocada em outro tanque para nova lavagem. Daí, os “farinheiros” peneiram a massa e colocam a sobra em outro tanque, para aguardar a prensagem. Do tanque em que foi peneirada a massa surge a goma, por um processo de decantação: a massa se deposita no fundo e, após escorrida a água, surge a goma, que é posta ao sol para secar.

Depois do trabalho de prensagem, que desidrata completamente a massa, vem o processo de peneiração e torragem, espalhando-se o produto gerado sobre um forno de superfície plana, feito de lajes de pedra. As lajes são aquecidas por lenha, dando início ao processo de torragem da massa, que é espalhada ininterruptamente sobre o forno, utilizando-se pás de madeira e cabo comprido. Depois de algum tempo, a massa transforma-se em farinha e está pronta para ser ensacada. Enquanto isso, a goma que secava ao sol em um largo depósito raso de cimento liso também está pronta para ser colocada nos sacos. A partir daí, é iniciado o processo de produção para consumo. Da farinha se faz o beiju e da goma se faz a tapioca, utilizando-se a mesma superfície do forno usado para assar a farinha. Na mesa dos piauienses, o beiju e a tapioca são costumeiros, geralmente saboreados com café.

A tiquira (tyquyra), que no vocabulário Tupi significa gotejar, destilar, gota ou goteira, é uma bebida muito consumida pelos nordestinos no dia-a-dia de suas conquistas pela sobrevivência. O processo de produção é diferente e exige outros tratamentos. A mandioca é triturada com casca, prensada e espalhada sobre a chapa lisa do forno quente, até criar uma crosta que servirá para abafar a massa. Depois de três dias abafada, a massa está decomposta e pronta para iniciar o processo de produção da tiquira.

Quem viaja pelo Piauí nos meses de julho e agosto certamente vai sentir no ar o cheiro gostoso da farinhada, tempo de tiquira, farinha, café, beiju e tapioca, ao lado dos fornos que esquentam as madrugadas de bate-papo e muita conversa.

Dicas e curiosidades sobre a mandioca:

Se a casca da mandioca estiver quente e o gado comer, é morte certa. O animal se embriaga e incha até cair sem forças.

Na hora de arrancar a mandioca, não se deve assoviar, para evitar que fique “suada”.

Não se deve tomar banho ou molhar qualquer parte do corpo depois de beber tiquira. Isso acelera o processo de embriaguez.

A água escorrida da prensagem da mandioca é venenosa, causando morte por inchaço do estômago.

Alguns produtores de tiquira colocam casca de tangerina no processo de produção, para aumentar o tom azulado da bebida.