Lendas do Piauí

A Pedra do Castelo

Era uma vez um rei que morava em um imenso castelo de torres altas. Costumava promover festas que se transformavam em grandes orgias, para as quais convidava moças e rapazes bonitos, muitos vindos até do exterior. As festas eram parte de um ritual sanguinário, pois acabavam em carnificina, já que o rei mandava matar todos os seus convidados. Um dia, Deus resolveu castigá-lo e mandou um anjo, disfarçado em um jovem, participar de um desses encontros. O anjo assistiu a tudo, e na hora dos assassinatos transformou o monarca, os convidados e o castelo em pedra. Até hoje, nas noites de lua cheia, ouve-se a melodia dos violinos e vê-se o reflexo das velas que iluminavam o castelo que, encantado, recupera vida com a luz da lua.

Zabelê

O chefe da tribo dos Amanajós tinha uma filha chamada Zabelê, que amava Metara, um índio da tribo dos Pimenteiras, terríveis inimigos dos Amanajós. Dizendo que iria colher mel perto de onde o rio Itaim deságua no rio Canindé, Zabelê aproveitava para se encontrar com o seu amado Metara.

Um dia, um índio chamado Mandahú, da tribo dos Amanajós, desconfiou daquelas andanças e resolveu seguir Zabelê, descobrindo o seu esconderijo. Apaixonado por Zabelê, Mandahú não suportava o seu amor não correspondido, principalmente porque se via preterido por um inimigo. Certa vez, Mandahú resolveu levar algumas testemunhas para desmascarar Zabelê.

Os dois amantes foram descobertos, surgindo uma briga que resultou na morte de Zabelê, de Metara e de Mandahú. O fato deu origem a outra guerra, que durou seis sóis e sete luas. Mas Tupã teve pena dos dois amantes e resolveu transformá-los em duas aves, que andam sempre juntas e cantam tristemente ao entardecer. Mandahú foi castigado e transformado em um gato maracajá, eternamente perseguido pelos caçadores por causa do valor de sua pele. Zabelê ainda hoje canta a tristeza de seu amor infeliz.

A porca do dente de ouro

Era alta madrugada em Teresina quando surgiu, pelas ruas da cidade, uma porca correndo em disparada. Havia um forte brilho em sua boca, vindo de um grande dente de ouro. Sempre na calada da noite, assombrava as pessoas dos subúrbios. Segundo a lenda, a porca teria sido gerada de uma filha que espancou a própria mãe, num acesso de histerismo.

Cabeça-de-Cuia

Crispim era um pescador que habitava as margens do rio Parnaíba, nas imediações em que o rio recebe as águas do Poti, zona norte de Teresina. Morava com a mãe, já velha e adoentada. Certa vez, depois de passar um dia inteiro sem nada conseguir pescar, Crispim volta para casa cheio de frustração e revolta. Pede à mãe alguma coisa para comer, e esta lhe serve o que tinha, uma rala sopa de osso. Irritado, Crispim grita que aquilo é comida para cachorro e, em seguida, pega o osso e parte para cima da mãe, atingindo-a várias vezes.

Desesperado, o pescador sai correndo porta afora e se joga nas águas do rio, enquanto a mãe, agonizando, lança-lhe uma maldição: haverá de se transformar em um terrível monstro, que só descansará quando lhe forem sacrificadas sete virgens chamadas Maria. Crispim se transforma no Cabeça-de-Cuia, que surge do fundo das águas para assustar as lavadeiras e ameaçar os pescadores que pesquem em excesso, além do que precisam. Dizem que, durante a noite, o Cabeça-de-Cuia se transforma num velho e sai vagando pelas ruas de Teresina.

Miridan

Era a mais bela jovem da tribo dos Acaroás, que habitava as margens do rio Paraim. Por ter sido escolhida dos deuses, Miridan nunca poderia se casar. Somente o velho pajé Piauiguara sabia que, se Miridan conhecesse o amor, ela teria um filho que não poderia sobreviver. E assim aconteceu. Não sabendo como esconder o filho desse amor, e com medo de que ele fosse sacrificado, Miridan colocou-o num tacho e soltou a pobre criança nas águas do rio Paraim.

A natureza se revoltou, o céu ficou escuro e fez descer um corpo estranho que penetrou na terra e abriu uma enorme fenda por onde jorrou muita água, até formar uma grande lagoa. É hoje a chamada lagoa de Parnaguá, localizada ao sul do Piauí. Depois de todos esses acontecimentos, Miridan, com saudades do filho, se jogou nas águas para ficar junto dele. Segundo a lenda, o filho habita o fundo da lagoa e é protegido pelas iaras.

De lá, ele só sai nas tardes de março, para anunciar o inverno em Parnaguá. Como não diz uma palavra, conta a lenda que no dia em que falar será enviado de Tupã para prever o fim do mundo.

Num-se-Pode

É uma lenda tipicamente teresinense. Conta a história de uma linda mulher que, tarde da noite, aparecia na praça Saraiva, ostentando sua beleza debaixo de um dos lampiões ali existentes. Movidos por aquela bela aparição, os homens se aproximavam para conversar ou, quem sabe, aventurar-se em mais uma conquista. Ao chegarem perto, a linda mulher pedia cigarro e, quando recebia, começava a crescer, crescer, até atingir o topo do lampião de gás e nele acender o cigarro. Enquanto crescia, ela repetia: “num-se-pode, num-se-pode...” Ninguém até hoje soube explicar o quê não se podia...

Pé de Deus e Pé do Diabo

No centro da cidade de Oeiras, existe uma pedra fincada no chão que traz sobre ela a marca de um pé esquerdo. Dizem que é a marca do pé de Jesus e, por isso, os moradores fiéis ali vão rezar, acender velas e fazer as suas penitências. Ao lado está a sepultura do diabo, já soterrada pelas pedras jogadas por esses mesmos fiéis. Portanto, quem visita o local acende uma vela a Jesus e joga uma pedra no diabo.

Caipora

Protege as caças, chegando a espancar os cachorros dos caçadores. Aparece mais nas noites de quinta para sexta-feira, mas é difícil encontrá-lo, já que anda à noite e está sempre por longe, espreitando. Às vezes, joga pedra nos caçadores e dá tanto de cipó nos cachorros que eles voltam para os seus donos gritando, incapazes de continuar caçando pelo resto da noite. Se alguém cruzar uma noite com o Caipora, tem que ter fumo de corda para oferecer a ele que, depois de mascar, se embriaga e dorme, sem incomodar por aquele noite.

Curupira

É um bicho muito feio, peludo e de orelhas grandes. Protege as matas e tem os calcanhares virados para a frente, que é para enganar os caçadores. Dizem que cura as árvores e esconde machados, foices ou facões que encontre pelas matas. Mesmo andando de dia, é muito difícil cruzar com ele.

Barba-Ruiva

A lagoa de Parnaguá nos traz mais uma de suas lendas. Diz-se que certa moça de família importante apaixonou-se por um vaqueiro que trabalhava na fazenda de seu pai. Passou a namorar o rapaz escondida de todos. Uma velha escrava sabia do perigoso relacionamento, e ficou assim confidente do casal. Um dia, a moça engravidou e escondeu a barriga com um prato amarrado no ventre. No dia do parto, matou a criança com medo da represália da família e jogou-a numa cacimba. As águas aumentaram tanto que chegou a formar um grande rio e, bem adiante, uma imensa lagoa. A criança se transformou em um velho de barbas ruivas, homem encantado, que assusta as lavadeiras, mas é inofensivo. Ele surge das águas, abraça carinhosamente as lavadeiras e mergulha.

Morou, Tá na Boca

Lenda gerada do relacionamento de um alfaiate anão com sua irmã. Aparecia pelas madrugadas, em Teresina. Parecido com um carneiro grande, corria atrás das pessoas dizendo: “morou, tá na boca”!

Carneirinho de Ouro

É também uma lenda da cidade de Oeiras. Dizem os antigos que o carneirinho vive em uma gruta do Morro do Leme e costuma sair do seu esconderijo às altas horas da noite para passear até o Morro do Sociedade, no lado oposto da cidade. É reluzente, anda rápido e ninguém até hoje conseguiu pegá-lo. Dizem que se alguém o fizer, ficará riquíssimo. O carneiro é tido com um animal de Deus e São João Batista o traz nas costas. Faz parte do folclore e se incorporou como lenda no Piauí, onde aparece com uma estrela de brilhantes na testa que indica grandes riquezas.